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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Paulo Santos [Milícia de Santa Maria] em entrevista à Bússola



Dando continuidade ao percurso de entrevistas a alguns dos intervenientes da última edição da Viagem Medieval, sentamo-nos com Paulo Santos, coordenador da Milícia de Santa Maria, a entidade que dá a cara pela “Investida”, o macro-espectáculo da Viagem.


Paulo, como começou a tua atividade no âmbito medieval?
«Foi um caminho percorrido ao longo dos últimos anos. Tudo começou com a barreira de tiro, há 9 anos que trabalhamos como arqueiros.»

Mas o caminho foi bem mais que isso. Como chegaste aos espetáculos, por onde começaste?
«Tudo nasceu na Feira, em 2008, quando fomos convidados a participar no Assalto ao Castelo, como arqueiros, com flechas de fogo. Aí nasceu a Milícia, na altura como o nome de Milícia de Geraldo Geraldes.
Entretanto fomos aprendendo. Temos escola Viv’Varte… foi um crescimento progressivo. Fizemos a Feira de Silves e em 2009 e 2010 assumimos, na Viagem, o Torneio do Mestre Arqueiro.
No primeiro ano do Torneio, fizemos algo mais pequeno, embora na Liça, e enfrentamos a nossa grande dificuldade: falar o medievalez. Ao segundo ano, o conceito mudou ligeiramente e começamos a ver a Liça cheia todas as tardes. Aí, sentimos que precisávamos de maior identidade e começamos a procurar um sentido para o nome. Como éramos todos desta zona, acabou por ficar a Milícia de Santa Maria.»

Entretanto deram novos passos?
«Sim, em 2011, avançamos para um espetáculo mais rigoroso, também ao final da tarde, junto ao Castelo. Foi uma sensação especial, em tudo, mas em especial na manutenção do conceito de recrutamento de público que já vinha do Mestre Arqueiro e que nos dá uma sensação de retribuição muito grande.
Este ano, voltamos a subir um degrau e chegamos ao palco maior. A Investida mantém também esse alinhamento da participação, tivemos connosco um participante muito especial que nasceu para isto no Mestre Arqueiro e demos uma grande participação à Espada de santo André.»

“Fomos aprendendo e percebendo como lidar com o público.”

Qual foi a sensação de explorar algo fora do Medieval, como no espectáculo da Terra dos Sonhos 2011?
«Ui. Eu estava lá com a pista, não apresentei projeto nenhum. Entretanto chamaram-me e fizeram-me o desafio: tu vais fazer um espetáculo de piratas na Terra dos Sonhos. Eu disse logo que não. Ainda por cima era na plataforma 1.
Na altura senti medo de arriscar. Mas acabei por ficar convencido e hoje penso que fiz muito bem em arriscar. Não posso dizer que correu tudo bem. Até porque tivemos problemas de visão no espetáculo, o espaço não era o mais adequado. Mas o resultado foi muito positivo, tivemos 20 pessoas em cena, falcoaria e muita cenografia.»

Como motivar tanta gente num espetáculo?
«É fácil. Só precisas fazê-los sentir parte do projeto e assumir responsabilidades. Assim, se falhas a responsabilidade é tua. Em resumo, acabo por distribuir a responsabilidade por todos os intervenientes.»

Onde encontras a força, as ideias, a vontade para a construção de um espetáculo?
«Não nascem de um dia para o outro…»

Como é que se chega a um espaço vazio, com tantas particularidades e singularidades de terreno e se monta aquilo que vimos na Viagem Medieval?
«Acaba por se resumir a encaixar lá o possível. Nós temos algum conhecimento militar, até de batalhas anteriores que já fizemos, como a Batalha de Atoleiros, um projeto em rio seco. Foi aprendizagem contínua, que nos permitiu chegar lá e aplicar os nossos conhecimentos da melhor forma possível.
Depois, temos de considerar que, apesar de as pessoas acharem que estão a ver um filme, a Investida é diferente de cinema e as pessoas não percebem isso. Aqui temos teatro, a câmara não vira para o outro lado quando é preciso. Não podemos ter milhares de mortos, porque eles não se voltam a mexer e teríamos de continuar o espetáculo em cima deles.»


“A mim assusta-me a falta de ideias”
Pedro Abrunhosa

Estavas à espera de tamanha adesão de público?
«Foi assim tanta? Com as luzes não temos a noção clara da quantidade de público que está lá.»

Qual foi a sensação de ouvir a gigantesca ovação do público, logo no dia da estreia?
«É o melhor. Eu não sou encenador ou realizador, eu sou um curioso. Isto acaba por ser um vício e eu agora gosto disto. Costumo dizer que já estou com ressaca, já estou com saudade. Está na altura de começar a pensar noutro.»

E então, há projetos para os próximos meses?
«Vamos apresentar uma proposta para a Terra dos Sonhos e vamos tentar a estreia no Imaginarius. Está na altura de pensar nisso e assumir o risco.
Até porque nós, com os nossos projetos, damos sempre trabalho a 10/12 pessoas, todas do concelho, todas desempregadas. Ao fazermos isto, estamos a criar oportunidades de trabalho.»

Texto: Bruno Costa
Coordenação Geral: Bruno Costa e Daniel Vilar

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Elsa Almeida em entrevista à Bússola



Elsa Almeida dá a cara pela MeZcla, um dos principais espetáculos de animação da edição 2012 da Viagem Medieval e sentou-se com a Bússola para nos explicar melhor o conceito do espetáculo, que desenvolveu em conjunto com o Ricardo Ferreira.


Fala-nos de ti. Da tua formação e daquilo que fizeste antes da MeZcla.
«Terminei o curso de Teatro há 3 anos, portanto em 2009, e logo aí fui fazer a Terra dos Sonhos. Nesse ano, estive no Armazém das Cartas.
Depois, já em 2010, a convite do Paulo Leite, fui assistente de encenação do teatro amador no CIRAC e no Fórum de Mosteirô. Em 2010, fui responsável pelo Fórum na recriação medieval de Canelas (Régua) e na Viagem Medieval, em parceria com a Margarida Carretas, assumi a responsabilidade da Mancebia. Em paralelo, estive com o CIRAC no Sítio dos Tormentos, onde continuei como assistente de encenação até Dezembro desse ano. Mas já em 2011 acabei por sair da encenação do CIRAC, mas ainda dei uma ajudinha como atriz.
Entretanto, concorri para dar aulas de Expressão dramática, mas fui continuando com outros projetos. Em 2011 estive fora da Viagem Medieval, mas voltei à Terra dos Sonhos com o Conta-me Histórias do Zoo de Lourosa, local onde estou a fazer a Visita Sensações.
Por último, fiz com o Ricardo Ferreira a encenação da MeZcla, para o CIRAC.»

Formação, sentes que é suficiente?
«Sinto que não tenho formação suficiente e por isso estou com ideias de ir para o Brasil, para apostar mais na formação em representação. Adoro as novelas brasileiras e a forma como eles desenvolvem as histórias e problemáticas da sociedade e quero aprender com eles.»

Qual o papel que preferes Atriz ou Encenadora?
«Atriz, sem dúvida. A coisa que mais gozo me dá é estar em cima do palco.
Aprende-se mais sendo encenadora, mas ser atriz é dar o corpo ao manifesto. Compreender das duas perspetivas acaba por ser uma forma de crescer.
Sendo atriz, podes ser o que tu quiseres. Um dia és enfermeira, outro dia princesa e quando dás por isso já és mendiga. Aprendes imenso sobre o que está á tua volta.»

“Um dia gostava de ser atriz a sério.”

Como chegaste à Viagem Medieval 2012?
«O CIRAC propôs-me apresentar um projeto à organização e acabei por dirigir este espetáculo com o Ricardo Ferreira.»

O que é a MeZcla?
«A MeZcla surge de uma junção de ideias que o CIRAC já tinha, até mesmo de projetos anteriores. Tudo teve por base a conceção de um espetáculo de encerramento, na onda do que os Saltarellus fazem: não tem nada de medieval e tem uma forte carga mítica.
Fizemos pesquisa literária para o integrar ao máximo no contexto da Viagem 2012 e acabamos por encarar D. Sancho I como o povoador, daí os guerreiros e o conceito de união, que mais não é do que o perfeito bem-estar entre diferentes raças.
Acaba por ser um misto de coisas: são criaturas que se geram em casulos; são guerreiros que no início são rivais, mas depois se vão unir. É uma sucessão de ideias… é algo em aberto.»

De onde surgiu o nome?
«Foi uma verdadeira dor de cabeça. Mas acabei por ter esta ideia… e fui ao dicionário. Mescla é a união de duas partes diferentes numa só. Perfeito. Mas queríamos mais. Acabamos por encarar a forte presença espanhola e converter o “s” em “Z” maiúsculo. Pena que este pormenor acabou por ficar perdido nos programas e acabou por ser a Mezcla.»

Quantas pessoas participaram no espetáculo?
«Eram 17 pessoas em palco, mais 1 técnico e 2 encenadores.»

Qual a sensação que ficou?
«É estranho. No geral correu bem, fora uns fogos-de-artifício a mais [sorrisos]. Mas há ideias que não foram bem esclarecidas e/ou entendidas e acabamos por ser vítimas de um “nim”. Foi experiência e deu para aprender muita coisa.»

Foi talvez o projeto mais polémico desta edição. Consegues perceber?
«Do lado do público correu mal. Estávamos no principal cruzamento com a Investida e o nosso público estava ali. Colocaram-se questões de segurança, que se tentaram resolver com a corda e com as limitações de circulação num determinado período, mas bloquearam o acesso ao espetáculo.»

Mas, então, porquê aquele local?
«O nosso projeto inicial era para a escadaria da Matriz, mas acabamos por ser remetidos para outro local e criou-se esta estrutura.»

Projetos futuros, tens?
«Pensar na Terra dos Sonhos e fazer formação no Brasil.»


Texto: Bruno Costa
Coordenação Geral: Bruno Costa e Daniel Vilar

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Liliana Salomé em entrevista à Bússola



Continuando a aventura das entrevistas aos intervenientes da última edição da Viagem Medieval em Terra de Santa Maria estivemos à conversa com Liliana Salomé, a responsável pelo projeto artístico incluído no espaço Sentir do Guerreiro, em plena subida para o Castelo.

“Foi fixe!”

Antes de compreender o conceito que está por trás deste espaço singular nesta edição da Viagem Medieval, façamos uma nova viagem no tempo. Torna-se essencial a conhecer do percurso artístico desta jovem, de forma a compreender as potencialidades deste e de futuros projetos artísticos. Para isso, e dada a grandiosidade do currículo, deixemos cair o discurso direto, pelo menos nesta fase.
Liliana começou a tocar piano aos 4 anos, em França. O seu percurso regeu-se desde cedo pelas normas mais clássicas, como a própria afirma: sempre me «ensinaram a andar na linha».
Mais tarde, já em Portugal, na Academia de Música estudou acordeão e voz/canto, seguindo-se um percurso ligado à ópera, onde compreendeu enormemente este submundo artístico, com enormes mais-valias para o sem projeto nos anos seguintes.
Há mais de dez anos, integrou a Companhia Portuense de Ópera, tendo participado na produção original para a Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, um projeto «vivido intensamente» por todos os intervenientes. Pela primeira vez, Liliana sentiu grandemente a sensação de perda aliada ao fim destes projetos mais arrojados. Mas voltou com novidades.
Pouco tempo depois fez a Carmina Burana, mas a ópera tinha um problema para a jovem: «os outros sonham e tu fazes o que eles querem». E assim se começou a desenhar um novo rumo.
Seguiu-se o Grupo de Teatro Renascer (Esmoriz), onde fez teatro de revista, uma nova e importante escola para um percurso tão polivalente. Como representante deste grupo, levou a sua voz a França e abriu portas a novas experiências e oportunidades.
Integrou a equipa do Teatro Sá da Bandeira, onde foi cantora, atriz e bailarina, tendo mais tarde assumido a direção de produção da Companhia Teatral Portuense.
Ingressou na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no curso de Teatro e Artes Performativas, onde teve a oportunidade de executar inúmeros projetos.


Em 2009, chegou à Terra dos Sonhos, no papel de «secretária» do Pai Natal, numa plataforma onde os meninos ficavam a saber se estavam aptos a receber os seus presentes no Natal e que fez imenso sucesso.
Seguiu-se uma paragem no Centro de Criatividade da Póvoa do Lanhoso, onde desenvolveu uma residência artística de 3 meses, com envolvência plena da população e voltou a viver intensamente um sentimento de pertença extrema a um local, vivenciando a dura barreira da perda e da despedida.
Em 2010, integrou a equipa do “Fossado”, na Viagem Medieval. Ainda nesse ano, lançou um novo projeto em parceria com Saphir Cristal: Trapos com Histórias, um conceito que está mais vivo do que nunca, procurando novas abordagens de interação com as crianças quer seja na versão musical ou na versão encenada. Ainda neste âmbito, estabeleceram uma parceria com a LIPOR, levando a “Monstra do Lixo” a várias escolas do Porto.
A partir desta altura desenvolve um projeto de estátuas vivas, que a levou a várias paragens em Portugal.
Ainda em 2010, regressou à Terra dos Sonhos, onde voltou a ser secretária do Pai Natal, num novo espaço: a gruta da Quinta do Castelo.
Em 2011 regressou à Viagem Medieval, tendo integrado a equipa do” Honra e Glória” e participou na Terra dos Sonhos com o projeto “Conta-me Histórias”, do Zoo de Lourosa.
Já este ano, participou na curta-metragem: “Castelo Mágico”, organizou o Festival de Estátuas Vivas de Vila Real e chegou à Viagem Medieval com o projeto “Sentir do Guerreiro”.

Posto isto, passemos às questões e à compreensão do projeto que a trouxe à Viagem Medieval 2012.

Como chegaste à Viagem Medieval em 2012?
Liliana é perentória na afirmação: «por convite da Feira Viva». Depois dos inúmeros projetos anteriores em produções para a empresa municipal feirense, o convite surgiu: «pediram-me para mudar o conceito dos últimos anos, utilizando novas ideias e perspetivas, sabendo de antemão que a maior parte do público para a componente teatral é infantil». Assim, «baixamos a idade alvo» para o espetáculo/circuito e decidimos que «os participantes tinham que se sentir mais guerreiros». «Pretendia uma fuga às tradicionais lutas» (e salvamentos de donzelas). Com isto, «fui fazendo o conceito no percurso que estava pré-definido».

Destacas algum momento desse percurso?
«A peculiar Iluminação particular da fada. Quando vi aquele local com aquela luz, conseguida pelo sol, não tive dúvidas da sua utilização… dá um lado poético ao circuito».
O conceito daquele local permitiu uma integração única. «A Fada cria uma cena mágica. Sabes que nunca vais encontrar uma fada verdadeira, mas que as há, lá isso há».
Há, ainda, o destaque para um momento muito concreto. «A poção mágica despertou muitos comentários entre os participantes, em especial a obrigatoriedade de a beber, por entre sopros mágicos e palhinhas».

Porquê um espírito tão aventureiro logo ao início do espetáculo e após a aventura nas pontes?
«O início mais assustador serve para eliminar o síndrome “eu já fiz grande cena ao passar a ponte, agora tudo é fácil”… e não é. Queria que ficasse aquele friozinho no estômago. Quando eu dizia: eu tenho medo de passar a porta, era esse mesmo o objetivo. Queria um clima algo assustador».

Mas conseguiste mais do que isso, certo?
«Sim, há ainda o pormenor da interação entre os guerreiros, potenciando conversas e criação de laços… para um percurso onde os adultos são dispensáveis».

Porquê um Rei Anão?
«É uma questão de participação social. Já que não podia recorrer a ninguém de cadeira de rodas, com muita pena minha, optei por uma outra situação de integração.
Tudo isto nasceu de uma semana de participação num projeto com a APN – Associação Portuguesa de Doentes Neuromusculares, onde a intensa partilha com 6 fantásticas senhoras, lindas e divertidas me despertou a consciência para este tipo de problemáticas e a necessidade de agir, alterando a perceção social das coisas.»

“Tu és pequenino, mas és o Rei… és tu quem vai condecorar os guerreiros.”

E a questão da assinatura dos participantes, no final?
«À saída, deixamos um livro de assinaturas, que nasce da vontade de criar um registo de participação. Na impossibilidade de ser um diploma, invertemos o conceito e ficamos com um livro de participações, dos valentes guerreiros de Santa Maria».

E contar histórias na Viagem Medieval, num registo semelhante ao que fizeste na Terra dos Sonhos?
«Eu ia adorar».

Há projetos na manga?
«Para já a aposta será nos Trapos com Histórias.»

Não abrindo muito o jogo, Liliana deixa em aberto um futuro promissor e voltaremos, sem dúvida, a contar com ela nos projetos artísticos de Santa Maria da Feira.


Texto: Bruno Costa
Coordenação Geral: Bruno Costa e Daniel Vilar

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

João Pinto [Projeto EZ] em entrevista à Bússola

A conversa com o João Pinto, mentor do Projeto EZ e interveniente em múltiplos acontecimentos artísticos ao longo da última década, foi uma caixinha de surpresas, ou talvez não. Havia um alinhamento, mas mais do que isso, fizemos uma conversa informal… por vezes, uma mera troca de opiniões e perspetivas. 


A genuinidade e espontaneidade vivem em cada uma das frases de um jovem que há muito mostrou o que vale e é verdadeiramente um exemplo de dedicação, persistência e capacidade de ultrapassar as limitações para qualquer um de nós. 

Nada melhor do que começar pelo início e perceber as origens e motivações de um percurso tão vasto como o que João Pinto transporta no seu currículo. 
João diz-nos que «tudo começou no Chapitô». «Foi uma escola, mas acima de tudo um carimbo. Por lá aprendi imenso e abriram-se portas, mas a maior formação é a experiência. É na rua, a resolver problemas e situações concretas, que se aprende». 
Mas, «na prática, nasci no Art’Encena, onde fui literalmente lançado aos leões. Foi com eles que fui para a rua experimentar e enfrentar as dificuldades. Foi assim que cresci. No percurso, cruzei-me com Istaminé, que entretanto se separaram, mas pontualmente poderão voltar a cruzar-se. E hoje dedico-me ao projeto EZ». 

Porquê a opção animação em detrimento do espetáculo mais rigoroso? 
«É uma opção apenas. Está dentro de mim… 
Eu nasci para isto com a personagem do bobo, NO Art’Encena. Esta personagem vive inteiramente da comunicação com o público e, ainda hoje, muitos anos depois, me falam dele. Eu estava a sentir e a viver aquilo intensamente, literalmente a improvisar. Era como se fosse real. Consegui estar 2 ou 3 horas na rua, com o público, e pareciam apenas 15 minutos. 
Os projetos desta natureza vivem da força, da essência, da vontade…» 

Poderemos acrescentar que vivem da PAIXÃO! 


“Já faço feiras medievais há 12 anos… começo a precisar de fazer coisas diferentes…” 


A experiência como narrador da Viagem Medieval, em 2010, foi diferente? 
«Foi diferente em tudo, mesmo na formação. Até então nunca tive alguém a mandar em mim, um encenador. Sempre tinha trabalhado em função da liberdade da rua e do público, aqui encontrei um novo desafio, com mais rigor técnico. Foi uma boa experiência, adorei, mas este conceito não me agrada muito». 


“O teatro de rua vive do público… só está quem quer e ninguém tem de pagar bilhete” 
“É essa a essência, a liberdade a espontaneidade…” 


E em relação ao Projeto EZ, encaixa nesse alinhamento mais aberto? 
«Sim, fiz aquilo que gosto, com ligeiros ajustamentos. Fiz inteiramente para mim, porque eu tenho de ser o meu maior crítico». 

Como nasceu o Projeto EZ? 
«Bem, EZ nasceu em 2006, quando saí do Chapitô. Nasceu do sonho… da minha educação em casa: quando tu queres uma coisa tens que trabalhar para ela. 
A minha noção era ter a minha mala às costas e vender o meu produto da forma mais simples. Tudo isto nasceu da construção de um espetáculo que nunca levei para a frente, o “1 palmo de estupidez”… e o projeto vivia disso, seguir-se-ia o 2 palmos de estupidez e por ai adiante. Mas passou, passou, passou… 
Acabei por começar com trabalho que não queria tanto… e agora renasceu tudo. É uma daquelas coisas em que podemos dizer que nos sentimos realizados. Tem um caráter muito meu, uma enorme conotação pessoal. 
Enfim, tudo nasceu do projeto das bicicletas (leia-se veículos), mas não se resume APENAS a isso. Bem, na prática, tudo começou no Facebook. Deixei uma imagem do primeiro protótipo e a reação foi absolutamente positiva. E a partir daí fui por aí adiante». 


“Não sou feliz se não estiver a inventar” 


Porquê o nome EZ? 
«EZ é o início e o fim de “EstupideZ”. Quando estamos a criar algo, a dado momento consideramos sempre que algumas das nossas ideias são estúpidas e vão para o lixo. Mas aí está o erro. Estupidez é não concretizarmos as nossas ideias, é não sermos felizes.» 

Como surgiu o Imaginarius 2012? 
«O EZ que conhecemos nasceu no Imaginarius. Chamaram-me e disseram-me: nós vamos ter de fazer algo para a promoção do festival, queres ser tu a fazer isso? Aceitei o desafio, mas, na prática, o que temos não é nada do que foi pensado. 
Tinha a ideia de usar os veículos numa espécie de pista de obstáculos, mas acabamos por fazer algo mais deambulante e com menos logística. E temos um problema: eu não sou engenheiro. Não poderíamos deixar os veículos ao uso exclusivo do público, daí a mudança. Tivemos a perspetiva de aumentar a interação e a segurança». 

E o público, como o sentes? 
«Não tenho muito a noção da adesão do público. Acabo por não ter a consciência das potencialidades. Só pelo que me dizem…» 

E como nasce O TRABUCO, o inovador projecto para a Viagem Medieval 2012? 
[sorrisos] 
«Foi criado em reunião. Cerca de 3 semanas antes da Viagem Medieval, convidaram-me para uma reunião, com a sugestão de uma proposta para a programação da Viagem. 
A minha ideia para um projeto a este nível seria a criação de uma perspetiva original de algo a solo (tipo Tosta Mista), queria parar para fazer este espetáculo, mas com 3 semanas apenas isso seria quase impossível. Fomos explorando uma ideia solta que estava na minha cabeça e à medida que fui explicando o conceito foi nascendo o que vimos. 
Com isto, tive apenas 3 semanas de intenso trabalho, uma delas à espera do carro de golfe. Mas lá fui preparando tudo e avançando com os figurinos. Foram duas semanas de construção… aquilo que eu realmente gosto!» 

Como partiram para a Viagem? 
 «Começamos por descer a rua da Câmara e lá foi uma faixa das que ambientavam o recinto… fomos logo destruir. 
Sempre consideramos que não era um espetáculo, estávamos num outro alinhamento. Em cada saída, a ideia era vamo-nos divertir! E aos poucos começamos a ver as potencialidades da máquina. 
O nosso objetivo era fazer algo que fosse capaz de fazer encher o olho e de arrancar as máquinas fotográficas dos bolsos do público. 
Não fizemos ensaios, apenas testes de capacidade e segurança. Tudo aconteceu espontaneamente». 

Gostaste do resultado? 
«Gostei deste trabalho, gosto de fazer trabalhos por encomenda. Gosto realmente deste tipo de trabalho, mas, nunca pensei que me cansasse tanto». 

Futuro da engenhoca? 
«Não tenciono vender o Trabuco, até porque o conceito foi criado especificamente para Feira, vive do espaço e das características daqui e não conheço mais feiras com este espaço». 

Saldo da Viagem… 
«Eu senti-me muito bem. 
Por vários motivos: construção da ideia; todas as pequenas coisas em relação à organização; fui bem tratado a todos os níveis… A satisfação e reação do público… Por tudo isto faço um balanço muito positivo». 

Novas máquinas/engenhocas? 
«Existem, eu não quero parar! 
Quero dinamizar o material dos vários projetos, sejam os veículos ou a estrutura para o medieval. Há novas ideias e coisas fantásticas que eu quero construir. Gostava de abordar veículos que marquem a diferença e sejam mais ilusão. Quero construir com mais utilidade para o dia-a-dia e moldar os veículos de forma a poderem ser usados por qualquer pessoa. Gostava de me aventurar noutros veículos. 
Eu considero sempre duas etapas, bem distintas, nos projetos EZ: a construção e o espetáculo. Quero sempre construir ideias impossíveis. Para isso, o meu armazém é só meu… Ali, criam-se coisas fantásticas. Lá tudo é possível, se houver tempo e capacidade para criar». 


“Sou capaz de criar à minha maneira” 

“Eu vivo um dia de cada vez” 
 “Não sou rico mas sou feliz” 


João Pinto mostra-nos uma verdadeira lição de vida e uma intensa e saudável persistência em busca da concretização dos sonhos e dos projetos. Promete novidades para breve: anuncia-se uma nova imagem para o projeto EZ, aliada a uma página web e novas ferramentas de comunicação. E como é óbvio, vemo-nos por aí… Na rua! Para que não escape nada, todas as novidades do projeto EZ estão em atualização permanente na sua página Facebook (www.facebook.com/ezveiculos). Antes de terminar, há coisas que não devem ficar esquecidas. João Pinto deixa um agradecimento especial às lojas “A Novidade” e “Girafa Kids” pela cedência de espaço e apoio incondicional. 


Texto: Bruno Costa
Coordenação Geral: Bruno Costa e Daniel Vilar