domingo, 6 de maio de 2012

Vouguinha: que futuro?


De quando em vez, como já todos sabem, ponho-me a olhar para o futuro… e já há algumas semanas que pretendia ponderar numa situação que recentemente tem sido alvo de algumas ideias: o futuro do Vouguinha.

Obviamente que todos concordamos que a actual Linha do Vouga se apresenta como um transporte obsoleto e sem qualquer capacidade de atracção de passageiros. Depois do anúncio imponderado do encerramento lá chegou a notícia da continuidade… mas será tempo de ponderar o futuro. Os autarcas falam na requalificação da linha, ligando o EDV a Espinho e com isso criando uma nova ligação directa ao Porto. Será essa a melhor solução?

Vamos por partes. Parece-me claro que a ligação ao Porto deva ser o futuro. Uma zona territorial que se integra na Área Metropolitana do Porto deverá estar devidamente servida de transportes públicos, nomeadamente o ferroviário, para a zona central dessa mesma unidade de integridade urbana. Mas será uma ligação por Espinho a melhor opção?

Se pensarmos no traçado actual do Vouguinha veremos que de Oliveira de Azeméis a Espinho as carruagens se limitam a cumprir curvas num traçado sinuoso e que não serve uma grande fatia (quase metade) da população… por acaso, a população do eixo industrial a norte do concelho da Feira e sul do concelho de Gaia. Ponto forte contra a ligação por Espinho, se pensarmos que estes potenciais utilizadores, por estarem mais próximos do Porto, serão os que terão maiores necessidades de transporte para esse local. Assim, adivinha-se uma solução de recurso. E não foi preciso ponderar muito.

Requalificar o Vouguinha implicará fazer tudo de novo. Então, porque não ponderar todo o conceito da linha? Rapidamente se compreende que o traçado rumo ao Porto terá de ser bem diferente do actual, por Espinho. Partindo de Oliveira de Azeméis, com os devidos ajustes no traçado, a chegada a S. João da Madeira parece-me pacífica. Daí para a frente o caso muda de figura: a panóplia de estações e apeadeiros terá de mudar, diga-se reduzir. Partiremos obviamente de Arrifana e depois fica a questão: com uma correcção e linearização do percurso, fará sentido mais alguma estação até à entrada na Feira? Se Arrifana poderá servir também Escapães, a estação actual estação Vila da Feira (designada no esquema proposto por Feira-Sanfins) poderá servir Fornos, Sanfins e parte de Escapães. Assim se justificaria uma considerável conquista de tempo no percurso. Mais adiante, obviamente que se justificaria uma nova estação central em Santa Maria da Feira (porque não nas traseiras do hospital, local onde se planeia a construção do Centro Coordenador de Transportes) e claro que um acesso ao Europarque… e daí para a frente um traçado completamente novo seria desejável. Sempre a direito rumo a S. João de Ver (fronteira com Rio Meão), uma paragem na Lourosa-Lamas e mais uma a norte do concelho (Mozelos-Nogueira). Penso que não precisaremos de estudos sem fim para demonstrar a mais-valia deste percurso face o actual… e quanto a Gaia nem se pergunta: Grijó, Seixezelo e Carvalhos seriam paragens obrigatórias. Depois seria tempo de pensar numa linha a poente ou a nascente da cidade de Gaia. Se já temos um canal ferroviário a poente e quando se projecta uma segunda linha de Metro, também esta a poente, parece-me que a população a nascente da cidade de Gaia deva ser privilegiada. Assim, a partir de Vila D’ Este (onde a linha poderia fazer ligação ao Metro do Porto, considerando a expansão futura da rede) seriam de equacionar paragens em Vilar de Andorinho e Oliveira do Douro, antes da linha atingir a Ponte S. João e, com isso, as estações de Campanhã e, desejavelmente, também S. Bento.

Quanto ao acesso ao Porto, penso que não restam dúvidas das vantagens desta solução contra a opção Espinho, que seria certamente menos frequentada (dado servir um menor número de potenciais passageiros) e complicaria uma linha já caótica. De qualquer forma, seria desejável a continuidade do serviço ferroviário nas áreas servidas pelo actual traçado do Vouguinha e, claro, uma ligação a Espinho e à Linha do Norte (permitindo, por exemplo, o acesso a Lisboa sem uma necessária deslocação ao Porto). Pode, então, sugerir-se a construção de um curto ramal de ligação entre as linhas, por exemplo, entre a Feira e Espinho, com alguns ajustes no número de paragens.

Para melhor visualização da ideia, deixo um quadro resumo, como que uma pedrada no charco, na expectativa de num futuro próximo (que esperemos seja curto) seja possível viajar até ao Porto num transporte público mais eficaz e menos poluente.

Hipotética Linha Oliveira de Azeméis-Porto e Ramal de Ligação a Espinho

Ainda a considerar que, em cada uma das cidades do EDV, o conceito de transportes deveria passar a ter em conta a integração com a nova linha, por exemplo com os autocarros expresso, autocarros urbanos, linhas de periferia e, ainda, táxi. As novas estações deveriam ser equacionadas no sentido da intermodalidade, permitindo o estacionamento de veículos nas imediações, permitindo, com isso, que a utilização seja potenciada pela facilidade de acesso. A integração no sistema Andante parece-me fundamental!

9 comentários:

Pedro disse...

E porque não aproveitar essa requalificação e incluir uma segunda ligação a Aveiro através do ramal de Aveiro? Podendo ainda fazer uma ligação até à Gafanha da Nazaré via ramal do Porto de Aveiro, aproveitando assim dois eixos importantes e nessa Cidade.
Apresento aqui duas propostas começando já pela que seria então a estação terminal, na Gafanha da Nazaré:
A) Gafanha da Nazaré, Aveiro Centro, Zona Industrial/Estádio, entrada na linha do Vouga nos apeadeiros de Azurva ou Eixo e continuação pela linha do Vouga para Águeda, Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis
B) Gafanha da Nazaré, Aveiro Centro, Estação de AVeiro, Santa Joana, entrada na linha do Vouga nos apeadeiros de Azurva ou Eixo e continuação pela linha do Vouga para Águeda, Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis
Em ambas as opções serviriam as populações das Gafanhas, numa estação terminal, seguindo até Aveiro centro, onde serviriam os vários estudantes da Universidade de Aveiro, Hospital de Aveiro e para centro de Aveiro, surgem agora aqui as duas opções, vamos então por partes:
Na opção A seguiria pela zona norte de Aveiro, com paragem na Zona Industrial de Aveiro, servindo também o Estádio Municipal entrando novamente na Linha do Vouga na zona de Azurva/Eixo.
Já na opção B, de Aveiro centro seguiria para a Estação de Aveiro, criando uma ligação via São Bernardo/Santa Joana com um ou dois apeadeiros entrando na zona de Azurva/Eixo.
Já a actual estação de Sernada do Vouga poderia ficar situada mais a poente e transformada em apeadeiro e a estação de Albergaria a Velha poderia ficar preparada para uma futura ligação a Viseu e ao interior do país.
Soluções que, penso eu, seriam bastante viáveis para servir o interior norte e centro do distrito de Aveiro.
Segue a minha opinião para lerem e opinarem!
Saudações

Pedro disse...

Surgiu-me uma dúvida ao observar o percurso via Google Earth, fazer a ligação de Porto (Campanhã)-Oliveira do Douro via ponte de São João, não teria que ir a General Torres? Ou pensaste numa ligação através de uma nova ponte ferroviária a ligar a Oliveira do Douro? Tira-me essa dúvida por favor

Hélder Aguiar disse...

Este, sim, seria um bom investimento, daqueles que têm retorno :)

Bruno Costa disse...

Pedro, essa zona do traçado, até pela densidade de construção será sem dúvida a mais complexa e com maior necessidade de estudos. De qualquer forma, e como um túnel me parece a única solução para a essa parte final da ligação, seria sempre de equacionar uma ligação ao túnel de acesso à ponte, já depois de General Torres. Essa opção penso que possibilitaria um túnel mais curto e com o mesmo objectivo final.

Emanuel Bettencourt disse...

Melhores cumprimentos,
Li com particular atenção o post, e os subsequentes comentários.
Esta é de facto uma matéria que deve ser profundamente refletida.
Parece-me que neste momento a questão não se prende tanto com uma eventual alteração/correção do traçado, mas sim com a necessidade de garantir a sustentabilidade deste importante equipamento.
Nesse sentido, é importante "pensar-se" o reposicionamento estratégico do Concelho da Feira no contexto da área metropolitana do Porto. Quer isto dizer que ainda antes de qualquer solução de optimização da linha em termos de percurso vs horários vs outra coisa qualquer, terá de considerar primeiramente uma outra análise mais centrada na relação custo/benefício e consequentemente e por extrapolação na capacidade das autarquias envolvidas poderem elas próprias comprometerem-se com uma solução definitiva para este problema. Seja como for, a minha intervenção serve apenas para dizer que a questão da viabilidade e consequente reabilitação do Vouguinha já está a ser refletida em termos de uma proposta política a ser apresentada aos eleitores nas próximas eleições autárquicas de 2013, estando inclusivamente pensado a este respeito um ciclo de conferências que nesse mesmo âmbito será anunciado oportunamente.
Não posso no entanto deixar de lhe dar os parabéns por introduzir este tema no seu Blog de forma tão lúcida e perspicaz.

bettencourt

Pedro disse...

Eu tenho estado atento as notícias sobre a Linha do Norte e a Linha do Vouga, e à uns tempos li no JN que se estudava a hipótese de alargar a Linha do Norte, pelo menos até Aveiro, devido ao elevado tráfico de Comboios Urbanos, IC, AP e Carga.
Eu lanço aqui a questão, segundo a tua proposta e continuando com a minha, não seria uma alternativa viável ao alargamento da linha? Podendo pela Linha do Vouga circular os comboios de Carga vindos do Porto de Aveiro e Sul e alguns Comboios Urbanos ligação Porto-Aveiro via interior, e a Linha do Norte, ficava então menos congestionada, circulariam apenas os actuais Urbanos da Linha de Aveiro, InterCidades e Alfa!
Assim, em vez de se gastar alguns Milhões de Euros no alargamento da Linha do Norte, investia-se na requalificação da Linha do Vouga!
Apenas mais uma ideia que me surgiu pela cabeça!

Bruno Costa disse...

Pois Pedro, nem te respondi à sugestão, que acho válida. Não serei especialista nessa zona geográfica, de forma a comentar o percurso. Mas, sem dúvida, que uma ligação também a sul (Aveiro) seria vantajosa.
Também já ouvi alguns comentários sobre isso e outros mais, em paralelo, sobre uma segunda linha para libertar algum tráfego à Linha do Norte... acho que esta «segunda linha» se alinha com este projecto para o Vouguinha.

O Engenho disse...

A linha do Vale do Vouga, é sem sombra de dúvida um dos exemplos do quão desaproveitado pode ser um recurso que pertence a todos nós. Ainda bem que surgiram propostas no sentido de uma viabilização e requalificação da mesma, que só provam que os "senhores de Lisboa" possuem apenas uma visão "alcatroada" dos transportes em Portugal. Com certeza que a proposta aqui apresentada preconiza uma visão sóbria e ambiciosa da realidade desta via férrea que serve o nosso concelho. Não obstante, para além de alguns "velhos do Restelo" com responsabilidades em certas localidades de Sta. Maria da Feira, não se apresenta muito viável esta visão no contexto económico actual. Seria obviamente, muito bom para o desenvolvimento de todos os Concelhos abrangidos, mas sobretudo para as suas gentes, e apesar do cepticismo, há que apresentar ideias e quem sabe fazer delas realidades!
"O sonho comanda a vida, e quando um homem sonha, o mundo pula e avança..."

O Engenho

Simon disse...

Já há muito que vislumbro a hipótese de existir uma linha de urbanos do Porto até O.Azeméis, passando por Gaia, Vila D'Este, Carvalhos, Grijó, Lourosa, Feira e S.J.Madeira. Acho fundamental e partilhando o "Andante" - seria a verdadeira integração metropolitana!